quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Anjos sexuais

"Ruta Skadi tinha 416 anos e todo seu orgulho e o conhecimento de uma feiticeira-rainha adulta. Era muito mais sábia do que qualquer humano vida-curta, mas não tinha a menor idéia de como parecia infantil ao lado daqueles seres imemoriais. Tampouco imaginava até que ponto a consciência deles se espalhava além dela como tentáculos até os cantos mais remotos de universos nunca sonhados por ela; e não fazia idéia de que os enxergava como formas humanas simplesmente porque seus olhos esperavam isso; se fosse percebê-los sem sua forma verdadeira, eles pareceriam mais uma arquitetura do que um organismo, como imensas estruturas compostas de inteligência e sentimento.
Mas eles esperavam isso mesmo - afinal ela era muito jovem.
Imediatamente bateram as asas e saltaram para a frente, e ela disparou com eles, surfando na turbulência que essas asas causavam no ar e adorando a velocidade e a força que isso conferia ao seu vôo.
Voaram durante toda a noite. As estrelas giravam ao seu redor, e desmaiavam e desapareciam à medida que a aurora subia do leste. O mundo explodiu em luz quando a borda do sol apareceu, e então passaram a voar por um céu azul e um ar claro, fresco, doce e úmido.
À luz do dia, os anjos eram menos visíveis, embora a sua singularidade ficasse óbvia para qualquer um. A luz que permitia que Ruta Skadi os visse ainda não era a do Sol que agora se erguia no céu, mas alguma outra luz, vinda de outro lugar.
Incansavelmente voaram, e incansavelmente ela os acompanhava. Sentia uma alegria intensa tomar conta dela por poder ter à sua disposição aquelas presenças imortais. E se alegrava por seu sangue e sua carne, pela áspera casca de pinheiro-nubígeno que ela sentia perto da pele, se alegrava porque seu coração batia e pela vida de todos os seus sentidos, pela fome que agora estava sentindo e pela presença de seu dimon-rouxinol de voz tão doce, pela terra lá embaixo e pela vida de cada criatura, tanto planta como animal; se deliciava em ser da mesma substância daquilo tudo, e em saber que, quando morresse, sua carne iria nutrir outras vidas como elas a tinham nutrido. E se alegrava, também, por estar indo ver novamente Lorde Asriel."

PULLMAN, Philip. A Faca Sutil (segundo volume da trilogia Fronteiras do Universo). Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p.133.

3 comentários:

Alexandrina dos Santos Martins disse...

Anjos sexuais? Você destaca nesse trecho o prazer carnal? Raphais, como os devassos são mesquinhos!! Somos mais que carne e osso, somos restos do passado, qualidades e defeitos. Quem consegue gostar disso tudo junto, gostar de forma integral, vive os amores mais verdadeiros e avassaladores. A verdade é avassaladora. Eu acho que a passagem mostra um momento em que a personagem sentiu-se integral. Com os anjos e o mundo. Poético. Bonito. Além da carne.

raphamatos disse...

Sim Colombina, sim, claro, não duvido disso. Concordo com vc!

na verdade eu falei Anjos Carnais pq nese capítulo do livro tem mais coisas que não estão escritas aqui e eu adorei a descrição física deles, inclusive, tem uma parte que dizia que os anjos copulavam com as pessoas...

enfim, pode ser que eu tenha me expressado mal entre o titulo e o texo, mas... de qq maneira eu quero deixar válido a observação de que esses anjos são mto sedutores


quanto à profundidade da sensação da feiticeira, prepararei um post pra comentar, pq é incrível!
tanto é que deixei em rosa, destacado!

um bjo!

danielandin disse...

Hummm...
Isso me lembra a Regina Machado e o seu trabalho com tradição oral.