"Ruta Skadi tinha 416 anos e todo seu orgulho e o conhecimento de uma feiticeira-rainha adulta. Era muito mais sábia do que qualquer humano vida-curta, mas não tinha a menor idéia de como parecia infantil ao lado daqueles seres imemoriais. Tampouco imaginava até que ponto a consciência deles se espalhava além dela como tentáculos até os cantos mais remotos de universos nunca sonhados por ela; e não fazia idéia de que os enxergava como formas humanas simplesmente porque seus olhos esperavam isso; se fosse percebê-los sem sua forma verdadeira, eles pareceriam mais uma arquitetura do que um organismo, como imensas estruturas compostas de inteligência e sentimento.
Mas eles esperavam isso mesmo - afinal ela era muito jovem.
Imediatamente bateram as asas e saltaram para a frente, e ela disparou com eles, surfando na turbulência que essas asas causavam no ar e adorando a velocidade e a força que isso conferia ao seu vôo.
Voaram durante toda a noite. As estrelas giravam ao seu redor, e desmaiavam e desapareciam à medida que a aurora subia do leste. O mundo explodiu em luz quando a borda do sol apareceu, e então passaram a voar por um céu azul e um ar claro, fresco, doce e úmido.
À luz do dia, os anjos eram menos visíveis, embora a sua singularidade ficasse óbvia para qualquer um. A luz que permitia que Ruta Skadi os visse ainda não era a do Sol que agora se erguia no céu, mas alguma outra luz, vinda de outro lugar.
Incansavelmente voaram, e incansavelmente ela os acompanhava. Sentia uma alegria intensa tomar conta dela por poder ter à sua disposição aquelas presenças imortais. E se alegrava por seu sangue e sua carne, pela áspera casca de pinheiro-nubígeno que ela sentia perto da pele, se alegrava porque seu coração batia e pela vida de todos os seus sentidos, pela fome que agora estava sentindo e pela presença de seu dimon-rouxinol de voz tão doce, pela terra lá embaixo e pela vida de cada criatura, tanto planta como animal; se deliciava em ser da mesma substância daquilo tudo, e em saber que, quando morresse, sua carne iria nutrir outras vidas como elas a tinham nutrido. E se alegrava, também, por estar indo ver novamente Lorde Asriel."
PULLMAN, Philip. A Faca Sutil (segundo volume da trilogia Fronteiras do Universo). Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p.133.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
sábado, 7 de fevereiro de 2009
A relatividade do Amor Fugaz
- Existem homens que nos servem, como o Cônsul em Trollesund. E existem homens que tomamos como amantes ou maridos. Você é muito novinha, Lyra, jovem demais para entender, mas vou lhe dizer assim mesmo e mais tarde você vai compreender: os homens passam diante de nossos olhos como borboletas, criaturas que só duram uma estação. Nós os amamos; eles são corajosos, orgulhosos, belos e inteligentes; e morrem quase de repente. Eles morrem tão depressa que nosso coração fica constantemente cheio de dor. Damos à luz os filhos deles, que serão feiticeiras se forem mulheres, e humanos, se forem homens; e então, num piscar de olhos, eles já partiram, caíram, morreram, se perderam. Nossos filhos também. Quando um menino está crescendo, ele acha que é imortal. A mãe dele sabe que ele não é. Cada vez fica mais doloroso, até que finalmente a gente fica com o coração partido. Talvez seja esse o momento que Yambe-Akka vem nos buscar. Ela é mais antiga que a tundra. Talvez para ela a vida de uma feiticeira seja tão curta quanto a dos homens é para nós.
Conversa entre Serafina Pekkala e Lyra, em A Bússola de Ouro (PULLMAN, Philip. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 289)
Conversa entre Serafina Pekkala e Lyra, em A Bússola de Ouro (PULLMAN, Philip. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 289)
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